
"Quando se tem necessidade de fazer da razão um tirano, como fez Sócrates, forçosamente se cria um perigo não pequeno de que outra coisa diferente faça de tirano. Então se adivinhou que a racionalidade era a salvadora, nem Sócrates nem os seus «pacientes» eram livres de ser racionais, - era de rigueur, era o seu último remédio. O fanatismo com que a reflexão grega inteira se lança para a racionalidade denuncia uma situação extrema: estava-se em perigo, tinha-se uma só escolha: ou perecer, ou ser absurdamente racional... O moralismo dos filósofos gregos a partir de Platão tem uns condicionamentos patológicos; e o mesmo se pode afirmar do seu apego à dialéctica. A equação Razão = Virtude = Felicidade significa simplesmente: há que imitar a Sócrates e implantar de maneira permanente, contra os apetites obscuros, uma luz diurna - a luz diurna da razão. Devemos ser inteligentes, claros, lúcidos a qualquer preço: toda a concessão aos instintos, ao inconsciente, rebaixa..."
Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos
Um comentário:
Gosto da crítica que Nietzsche faz dos filósofos da Grécia Antiga; No fundo as pessoas comuns pensam assim, pois não perecem dessa inteligência extrema de que os gregos foram dotados; mas Nietzsche, ao contrário de Sócrates, deu importância ao instinto e também ousou dá-la à inteligência e, ao servir-se dela, critica ironicamente o rei de todos os filósofos. Só a partir do século XX é que o positivismo lógico cambiou para o relativismo, se não fossem as descobertas de Einstein, ainda hoje estavamos mergulhados apenas em coisas concretas e que se repetem. O inconsciente, aspecto surrealista que não pode ser estudado metodicamente é completamente deixado de lado. Não podemos ver o mundo a preto e branco. Se temos instintos devemos explorá-los. Quiça as coisas que saem intuitivamente são mais verdadeiras que as verdades inerentes e universais. Eu gosto dos instintos.
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