segunda-feira, 22 de março de 2010

100 dias, 100 noites

"Era uma vez um rei que fez uma festa na qual estavam as princesas mais bonitas do reino. Um soldado que estava de guarda viu passar a filha do rei. Era a mais bonita de todas, e ficou logo apaixonado, mas o que podia fazer um pobre soldado em relação à filha do rei? Por fim, um dia conseguiu encontrá-la e disse-lhe que não podia viver sem ela. A princesa ficou tão comovida por aquele forte sentimento que disse ao soldado: “Se conseguir esperar 100 dias e 100 noites debaixo da minha janela, acabarei por ser sua”. O soldado foi de imediato para lá e esperou um dia, dois dias, dez, e depois vinte. E todas as noite, a princesa controlava pela janela, mas ele nunca se movia. Podia chover, fazer vento, nevar, que ele continuava lá. Os pássaros sujavam-no, as abelhas comiam-no vivo, mas ele não se movia. Depois de 90 noites, estava emagrecido, esbranquiçado, as lágrimas caíam-lhe rosto abaixo sem que ele pudesse segurá-las porque nem forças para dormir ele tinha. Entretanto, a princesa observava-o. E na 99ª noite, o soldado levantou-se, pegou na sua cadeira e foi-se embora."

História contada no filme "Cinema Paraíso"

Alice

Agora que o sonho acabou,
A sua existência terminou.
Jaz agora sepultada
a criança que nunca nasceu.

Invade-me uma nostalgia
de um desejo paterno,
de ter nos braços o produto da
combinação perfeita de dois seres que se amam
(ou amavam?)

Vejo-a agora pálida e fria...
Ela já não brinca,
Ela já não chama por mim
Pois eu já não o seu pai...
O pai? Será outro!

Que fazes tu aí dentro,
cercada por essas quatro paredes de madeira?
Anda para dentro, não te quero doente!
Oh, mas tu já estás morta!
Abraçada à relação perfeita,
que em tempos existiu,
no teu leito de morte.

Já não sou o teu pai, Alice, já não sou o teu pai...

domingo, 21 de março de 2010

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

Eugénio de Andrade

A Moral como Contra-Natureza VI

"Consideremos ainda, por último, que ingenuidade é dizer: "o homem deveria ser deste ou daquele modo!" A realidade mostra-nos uma riqueza fascinante de tipos, a exuberância própria de um pródigo jogo e mudança de formas: e qualquer pobre moço de esquina de moralista diz a isto: "não!, o homem deveria ser de outro modo"?... Ele sabe mesmo como deveria ser ele, esse mentecapto e hipócrita, pinta-se a si mesmo na parede e diz ecce homo!... Porém, mesmo quando o moralista se dirige simplesmente ao indivíduo e lhe diz: "tu deverias ser deste e daquele modo!", não deixa de se pôr a ridículo. O indivíduo é, de cima a baixo, um fragmento de fatum, mais uma lei, mais uma necessidade para tudo o que vem e será. Dizer-lhe "modifica-te" significa procurar que se modifiquem todas as coisas, mesmo as passadas... E, realmente, houve moralistas consequentes, eles quiseram o homem de outro modo, quer dizer, virtuoso, quiseram-no à sua imagem, ou seja, como um beato: para isso negaram o mundo! Um disparate nada pequeno! Uma espécie nada modesta de imodéstia!... A moral, na medida em que condena por si, não devido a atenções, considerações, intenções próprias da vida, é um erro específico com o qual não se deve ter compaixão alguma, uma idiossincrasia de degenerados, que produziu um dano indescritível!... Nós que somos diferentes, nós os imoralistas, temos aberto, pelo contrário, o nosso coração a toda a espécie de intelecção, compreensão, aprovação. Não se nos afigura fácil negar, procuramos a nossa honra em sermos afirmativos. Vão-se-nos abrindo cada vez mais olhos para ver aquela economia que necessita e sabe aproveitar ainda tudo aquilo que é recusado pelo santo desatino do sacerdote, pela razão enferma do sacerdote, para ver aquela economia que rege a lei da vida, a qual obtém proveito mesmo da repugnante species do beato, do sacerdote, do virtuoso, - que proveito? - Mas nós próprios, os imoralistas, somos aqui a resposta..."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

A Moral como Contra-Natureza V

"Supondo que se tenha compreendido o carácter delituoso de tal rebelião contra a vida, rebelião que se tornou quase sacrossanta no moral cristã, com isso se compreendeu também, por sorte, outra coisa: o carácter inútil, ilusório, absurdo, mentiroso de tal rebelião. Uma condenação da vida por parte do vivente não deixa de ser, em última instância, mais que o sintoma de uma espécie determinada de vida: a questão de essa condenação ser justa ou injusta não é suscitada de modo algum com isso. Seria necessário estar situado fora da vida, e, por outro lado, conhecê-la tão bem como um, como muitos, como todos os que a viveram, para que fosse lícito tocar no problema do valor da vida enquanto tal: razões suficientes para compreender que o problema nos é inacessível. Quando falamos de valores, fazemo-lo sob a inspiração, sob a óptica da vida: a própria vida é que nos constrange a estabelecer valores, a própria vida é que valoriza através de nós quando estabelecemos valores... Daqui resulta que também aquela contranatureza feita moral que concebe Deus como conceito antitético e com condenação da vida é apenas uma juízo de valor da vida - de que vida?, de que espécie de vida? - Mas já dei a resposta: da vida descendente, debilitada, fatigada, condenada. A moral tal como tem sido entendida até agora - tal como tem sido formulada ainda ultimamente por Schopenhauer, como "negação da vontade de vida" - é o próprio instinto de décadence, que faz de si um imperativo: essa moral diz: "perece!" - é o juízo dos já condenados..."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

A Moral como Contra-Natureza IV

"Vou reduzir a fórmula a um princípio. Todo o naturalismo tem moral, quero dizer, toda a moral sã está regida por um instinto da vida, - um mandamento qualquer da vida é cumprido com um certo cânone de "deves" e "não deves", um obstáculo e uma inimizade qualquer no caminho da vida ficam com isso eliminados. A moral contranatural, ou seja, quase toda a moral até agora ensinada, venerada e pregada, dirige-se, pelo contrário, precisamente contra os instintos da vida, - é uma condenação, por vezes encoberta, por vezes ruidosa e insolente, desses instintos. Ao dizer "Deus lê nos corações", a moral diz não aos apetites mais baixos e mais altos da vida e considera Deus inimigo da vida... O santo para quem Deus tem a sua complacência é o castrado ideal... A vida acaba onde começa o "reino de Deus"..."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

A Moral como Contra-Natureza III

"A espiritualização da sensualidade chama-se amor: ela é um grande triunfo sobre o cristianismo. Outro triunfo é a nossa espiritualização da inimizade. Consiste em compreender profundamente o valor que possui o ter inimigos: dito brevemente, em proceder a extrair conclusões ao inverso de como se procedia e extraía conclusões noutro tempo. A Igreja quis sempre a aniquilação dos seus inimigos: nós, nós os imoralistas e anticristãos, vemos a nossa vantagem em que a Igreja subsista. Também no âmbito político a inimizade se tornou agora mais espiritual, - muito mais inteligente, muito mais reflexiva, muito mais indulgente. Quase todos os partidos se dão conta de que para a sua própria autoconservação lhes interessa que o partido oposto não perca forças; o mesmo se deve dizer para a grande política. Especialmente uma criação nova, por exemplo o novo Reich, tem uma maior necessidade de inimigos que de amigos: só na antítese se sente necessário, só na antítese chega a tornar-se necessário... Não nos comportamos de outro modo com o nosso "inimigo interior": também aqui temos espiritualizado a inimizade, também aqui temos compreendido o seu valor. Só se é fecundo pelo preço de ser rico em contradições; só se permanece jovem na condição de que a alma não se relaxe, não deseje a paz... Nada se nos tornou mais estranho que aquela aspiração de outrora, a aspiração à "paz de espírito", a aspiração cristã; nada nos causa menos inveja do que a moral ruminante e a sebosa felicidade da consciência tranquila. Renunciou-se à vida grande quando se renunciou à guerra... Em muitos casos, desde logo, a "paz de espírito" não é mais do que um mal-entendido, outra coisa, a que unicamente não se sabe atribuir um nome mais honrado. Sem divagações nem preconceitos aqui temos uns quantos casos. "Paz de espírito" pode ser, por exemplo, a plácida projecção de uma animalidade rica no terreno moral (ou religioso). Ou o começo da fadiga, a primeira sombra que traz o crepúsculo, qualquer espécie de crepúsculo. Ou um sinal de que o ar está húmido, de que se aproximam ventos do Sul. Ou o agradecimento, sem se o saber, por uma digestão feliz (chamado às vezes "filantropia"). Ou a calma do convalescente, para o qual todas as coisas têm um sabor e que está à espera... Ou o estado que se segue a uma intensa satisfação da nossa paixão dominante, o sentimento de bem-estar próprio de uma saciedade rara. Ou a debilidade senil da nossa vontade, dos nossos apetites, dos nossos vícios. Ou a preguiça, persuadida pela vaidade a ataviar-se com adornos morais. Ou o advento de uma certeza, mesmo de uma certeza terrível, após uma tensão e tortura prolongadas devidas à incerteza. Ou a expressão da maturidade e a mestria na actividade, no criar, agir, querer, a respiração tranquila, a alcançada "liberdade da vontade"... Crepúsculo dos Ídolos: quem sabe, talvez também unicamente uma espécie de "paz de espírito"..."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

A Moral como Contra-Natureza II

"Esse mesmo remédio, a castração, o extermínio, é escolhido instintivamente, na luta contra um desejo, pelos que são mais débeis, pelos que estão demasiado degenerados para poderem impor-se moderação nesse desejo: por aquelas naturezas que, para falar em matáfora (e sem metáfora -), têm necessidade de la Trappe, de alguma declaração definitiva de inimizade, de um abismo entre elas e uma paixão. Os meios radicais afiguram-se indispensáveis tão-só aos degenerados; a debilidade da vontade, ou, dito com mais exactidão, a incapacidade de não reagir a um estímulo é simplesmente outra forma de degenerescência. A inimizade radical, o ódio mortal contra a sensualidade não deixa de ser um sintoma que induz a reflectir: ele autoriza a fazer conjecturas sobre a saúde mental de quem comete tais excessos. - Essa hostilidade, esse ódio chega ao seu cúmulo, além disso, só quando tais naturezas não têm já firmeza bastante para a cura radical, para renunciar ao seu "demónio". Deite-se um olhar para a história inteira dos sacerdotes e filósofos, não esquecendo a dos artistas: as coisas mais venenosas contra os sentidos não foram ditas pelos impotentes, tão-pouco pelos ascetas, mas sim pelos ascetas impossíveis, por aqueles que teriam necessitado de ser ascetas..."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

sábado, 20 de março de 2010

A Moral como Contra-Natureza I


"Todas as paixões têm uma época em que são meramente nefastas, durante a qual, com o peso da estupidez, arrastam as suas vítimas para uma depressão - e uma época mais tardia muito posterior, na qual desposam o espírito, na qual se "espiritualizam". Noutro tempo movia-se guerra à própria paixão, por causa da estupidez nela existente: as pessoas conjuravam-se para aniquilá-la, - todos os velhos monstros da moral coincidem unanimemente em que il faut tuer les passions. A fórmula mais célebre desta ideia encontra-se no Novo Testamento, naquele Sermão da Montanha, na qual, diga-se de passagem, as coisas não são consideradas de modo algum desde as alturas. Nele se diz, por exemplo, aplicando na prática à sexualidade, "se o teu olho te escandaliza, arranca-o" por sorte nenhum cristão actua de acordo com esse preceito. Aniquilar as paixões e apetites meramente para prevenir a sua estupidez e as consequências desagradáveis desta é algo que hoje nos aparece simplesmente como uma forma aguda de estupidez. Já não admiramos os dentistas que extraem os dentes para que não continuem a doer... Com certa equidade concedamos, por outro lado, que o conceito "espiritualização da paixão" não podia ser concebido de forma alguma no terreno de que brotou o cristianismo. A igreja primitiva lutou, com efeito, como é sabido, contra os "inteligentes" em favor dos "pobres de espírito": como esperar dela uma guerra inteligente contra a paixão? - A Igreja combate a paixão com a extirpação, em todos os sentidos da palavra: a sua medicina, a sua "cura" é a castração. Não pergunta nunca: "Como espiritualizar, embelezar, divinizar um apetite?" - ela sempre carregou o acento da disciplina no extermínio (da sensualidade, do orgulho, da vontade de poder, da ânsia de posse, do desejo de vingança). - Porém atacar as paixões na sua raiz significa atacar a vida na sua raiz: a praxis da Igreja é hostil à vida...

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

sexta-feira, 19 de março de 2010

O Heráclito Português


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

quarta-feira, 10 de março de 2010

"Esprit Fort"


Comparado com a aquele que tem a tradição do seu lado e não precisa de razões para o seu procedimento, o espírito livre é sempre fraco, nomeadamente na maneira de agir; pois conhece demasiados motivos e pontos de vista e tem, por isso, uma mão insegura, mal exercitada. Ora, que meios há para o fazer, contudo, relativamente forte, de modo que ele ao menos se imponha e não pereça sem produzir efeito? Como surge o espírito forte (esprit fort)? Esta é, num único caso, a questão de produção do génio. Donde vêm a energia, a força inexorável, a persistência, com as quais o indivíduo, opondo-se ao costume, tenta obter um conhecimento inteiramente individual do mundo?
Friedrich Nietzsche

segunda-feira, 8 de março de 2010

...


"O Inferno são os outros."
Jean-Paul Sartre

Freud


"Fui um homem afortunado; na vida nada me foi fácil."

Sigmund Freud

sexta-feira, 5 de março de 2010

Fragilidade


"Fragilidade, o teu nome é mulher!"
William Shakespeare