terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Babeu


"Não se pensa nisso!"
Frase proferida por um idiota qualquer

Eternal sunshine of the spotless mind


How happy is the blameless vestal's lot!

The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!

Each pray'r accepted, and each wish resign'd;

Alexander Pope in Eloisa To Sam

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Deus?

"Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é omnipotente. É capaz, mas não deseja? Então é malevolente. É capaz e deseja? Então por que existe o mal? Não é capaz nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?"

Epicuro

O Absurdo

"Bom, seremos mentirosos, maus e injustos; sabemo-lo e lamentamo-lo, e é essa a nossa tortura, e talvez por isso nos atormentemos e castiguemos mais do que faria esse Juiz misericordioso que há-de julgar-nos no futuro, mas cujo nome nos é desconhecido. Mas, em compensação, possuímos a ciência, e graças a ela havemos de tornar a encontrar a verdade, e então aceitá-la-emos já com consciência. O saber está acima do sentimento; o conhecimento da vida... acima da própria vida. A ciência há-de tornar-nos omniscientes; a omnisciência conhece todas as leis, e o conhecimento da lei da felicidade... está acima da própria felicidade"

Fiódor Dostoiévski, O Sonho Dum Homem Ridículo

domingo, 13 de dezembro de 2009

Excerto de um poema

Quando o ardor das minhas palavras persuasivas
Retirou das trevas do erro
A tua alma degradada,
E que, cheia de uma dor atroz,
Tu, retorcendo as mãos,
Amaldiçoaste o vício que te arrastou;
Quando, castigando a consciência,
Atormentada pela recordação,
Me contaste a história toda
Daquilo que houve antes de mim,
E, de repente, ocultando o rosto entre as mãos,
Cheia de vergonha e de horror,
Te desfizeste em lágrimas,
Desolada, convulsa...

De uma poesia de Niekrássov

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

- Sei que não vou por aí!


José Régio, Poemas de Deus e do Diabo



Poema dedicado à minha mãe e a todos os que se identificam com a preciosa mensagem que este transmite.
Somente as ovelhas é que necessitam de um pastor.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Origem da Decadência IX (Fim)


"Chegou a compreender isto ele, o mais inteligente de todos os que se enganam a si próprios? Acabou por reconhecê-lo, na sabedoria da sua coragem perante a morte?... Sócrates queria morrer; não foi Atenas, mas ele quem a si próprio deu o copo de veneno, ele forçou Atenas a dar-lho... «Sócrates não é um médico, disse em voz baixa a si mesmo: somente a morte é um médico... Sócrates esteve apenas doente durante longo tempo...»"

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

Origem da Decadência VIII


"Dei a entender porque motivos fascinava Sócrates: parecia ser um médico, um salvador. É necessário mostrar ainda o erro que havia na sua fé na «racionalidade» a qualquer preço? - É um auto-engano por porte dos filósofos e moralistas acreditarem que se livram já da décadence pelo facto de lhe moverem guerra. O escapar-lhe é algo que está para além da sua força: o que eles escolhem como remédio, como salvação, não é por seu lado mais que uma outra expressão da décadence - modificam sua expressão, porém não a eliminam propriamente. Sócrates foi um equívoco: toda a moral do aperfeiçoamento, incluindo a cristã, foi um equívoco... A luz diurna mais deslumbrante, a racionalidade a qualquer preço, a vida lúcida, fria, previdente, consciente, sem instinto, em oposição aos instintos, tudo isto era só uma doença diferente - e de modo algum um caminho de regresso à «virtude», à «saúde», à felicidade... Ter que combater os instintos - essa a fórmula da décadence: enquanto a vida ascende felicidade é igual a instinto."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

domingo, 6 de dezembro de 2009

Origem da Decadência VII


"Quando se tem necessidade de fazer da razão um tirano, como fez Sócrates, forçosamente se cria um perigo não pequeno de que outra coisa diferente faça de tirano. Então se adivinhou que a racionalidade era a salvadora, nem Sócrates nem os seus «pacientes» eram livres de ser racionais, - era de rigueur, era o seu último remédio. O fanatismo com que a reflexão grega inteira se lança para a racionalidade denuncia uma situação extrema: estava-se em perigo, tinha-se uma só escolha: ou perecer, ou ser absurdamente racional... O moralismo dos filósofos gregos a partir de Platão tem uns condicionamentos patológicos; e o mesmo se pode afirmar do seu apego à dialéctica. A equação Razão = Virtude = Felicidade significa simplesmente: há que imitar a Sócrates e implantar de maneira permanente, contra os apetites obscuros, uma luz diurna - a luz diurna da razão. Devemos ser inteligentes, claros, lúcidos a qualquer preço: toda a concessão aos instintos, ao inconsciente, rebaixa..."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Origem da Decadência VI


"Dei a entender porque que motivos podia Sócrates causar repulsa: resta-me agora esclarecer o que fascinava nele. - Uma razão é que ele descobriu uma espécie nova de agón, nisto ele foi o primeiro mestre de esgrima para os círculos aristocráticos de Atenas. Fascinava, na medida em que apelava para o instinto agonal dos helenos, - introduziu uma variante na luta pugilística entre os jovens e os adolescentes. Sócrates era também um grande erótico.
Mas Sócrates adivinhou algo mais. Viu o que havia por trás dos seus aristocráticos atenienses; compreendeu que o seu caso, a idiossincrasia do seu caso, não era já um caso excepcional. A mesma espécie de degenerescência preparava-se silenciosamente em toda parte: A velha Atenas caminhava para o seu fim. E Sócrates compreendeu que todos precisavam dele, - do seu remédio, da sua cura, do seu ardil pessoal para autoconservar-se... Por toda a parte os instintos encontravam-se em anarquia; em toda a parte estava-se à beira do excesso: o monstrum in animo era o perigo geral. «Os instintos querem arvorar-se em tiranos; há que inventar um contratirano, que seja mais forte...»
Quando aquele fisionomista revelou a Sócrates a sua verdadeira natureza, um antro de todos os maus instintos, o grande irónico pronunciou contudo uma uma frase que fornece a chave para o compreender. «É verdade, disse, porém consegui dominá-los a todos». Como chegou Sócrates a dominar-se a si? - No fundo, o seu caso foi só o caso extremo, só o caso que saltava mais à vista, daquilo que começava então a tornar-se calamidade geral: que ninguém era já dono de si - que os instintos se voltavam uns contra os outros. Sócrates fascinou por ser esse o caso extremo - a sua fealdade, que inspirava medo, era aos olhos de todos a expressão desse caso: e, como é fácil compreender, fascinou mais fortemente ainda como resposta, como solução, como aparência de cura desse caso."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Origem da Decadência V


"A dialéctica só se adopta quando não se pode utilizar nenhum outro meio. Sabe-se que com ela se inspira desconfiança, que ela persuade pouco. Nada é mais fácil de suprimir que o efeito de um dialéctico: a experiência de toda a reunião em que haja discursos prova-o. A dialéctica só pode ser um recurso coagido, nas mãos dos que não têm já outras armas. É preciso que se tenha de conseguir pela força os próprios direitos: antes não se faz nenhum uso dela. Por isso foram dialécticos os judeus; também o foi a raposa Reinecke: como?, e também o foi Sócrates?
É a ironia de Sócrates uma expressão de revolta?, de ressentimento plebeu?, usa ele, como oprimido, a sua própria ferocidade nas punhaladas do silogismo?, vinga-se dos aristocratas a quem fascina? - Se alguém é um dialéctico tem na sua mão um instrumento implacável; com ele pode tiranizar; compromete os outros ao vencê-los. O dialéctico deixa ao seu adversário a tarefa de provar que não é um idiota: enfurece os outros, ao mesmo tempo priva-os da capacidade para se defenderem. O dialéctico torna impotente o intelecto de seu adversário. - Como?, é a dialéctica em Sócrates apenas uma forma de vingança?"

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Origem da Decadência IV


"Não só o excesso e a anarquia confessados dos instintos são um indício de décadence em Sócrates: também o são a superfetação do lógico e aquela maldade de raquítico que o caracteriza.(...) Tudo nele é exagerado, buffo, caricatural, tudo é ao mesmo tempo oculto, cheio de segundas intenções, subterrâneo. - Eu tenciono averiguar de que idiossincrasia procede aquela equação socrática de Razão = Virtude = Felicidade: a equação mais extravagante que existe, e que tem contra si, em especial, todos os instintos do helenos antigo.
Com Sócrates o gosto grego altera-se em favor da dialéctica: o que é que acontece então verdadeiramente? Antes de tudo, com isto fica vencido um gosto aristrocático; com a dialéctica a plebe coloca-se por cima. Antes de Sócrates as pessoas, na boa sociedade, repudiavam os modos dialécticos: eram considerados como sendo de mau gosto, comprometiam quem as usasse. A juventude era prevenida contra eles. Também se desconfiava de toda a exibição por esse método das ideias de cada um. As coisas honestas, tal como os homens honestos, não levam as suas razões na mão dessa maneira. É indecoroso mostrar os cinco dedos. Pouco valioso é o que tem de ser provado. Em todo o lugar onde a autoridade continua a fazer parte do bom costume, e o que se dá não são «razões», mas sim ordens, o dialéctico é uma espécie de palhaço: as pessoas riem-se dele, não o tomam a sério. - Sócrates foi o palhaço que se fez tomar a sério: o que aconteceu realmente aqui?"

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos