quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Os Sonhadores


"E vocês sabem o que é um sonhador, cavalheiros? É um pecado personificado, uma tragédia misteriosa, escura e selvagem, com todos os seus horrores frenéticos, catástrofes, devaneios e fins infelizes... um sonhador é sempre um tipo difícil de pessoa porque ele é enormemente imprevisível: umas vezes muito alegre, às vezes muito triste, às vezes rude, noutras muito compreensivo e enternecedor, num momento um egoísta e noutro capaz dos mais honráveis sentimentos... não é uma vida assim uma tragédia? Não é isto um pecado, um horror? Não é uma caricatura? E não somos todos mais ou menos sonhadores?"

"[...] nos caracteres ansiosos de actividade, mas fracos, femininos, ternos, nasce a pouco e pouco aquilo a que se chama «sonhadorismo», e o homem deixa de ser homem, torna-se numa espécie esquisita… — o sonhador […] A realidade produz no coração do sonhador uma impressão grave, hostil, e então apressa-se a meter-se no seu cantinho secreto e dourado, que na realidade é, não raro, poeirento, desmazelado, desarrumado e porco. A pouco e pouco, o nosso rebelde começa a alienar-se dos interesses comuns e, gradualmente, imperceptivelmente, começa a embotar-se nele o talento de viver na vida real"

Fiodor Dostoievski

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Espírito Livre, um conceito relativo...


"Chama-se «espírito livre» àquele que pensa de forma diferente do que se espera dele, em virtude da sua origem, do seu meio, da sua posição e do seu ofício, ou em virtude dos pontos de vista dominantes da época. Ele é a excepção, os espíritos subordinados são a regra; estes censuram-no por os seus princípios livres ou terem a sua origem na mania de se fazer notar ou até permitirem chegar a acções livres, isto é, a actos que são inconciliáveis com a moral estrita. De vez em quando, também se diz que estes ou aqueles princípios livres seriam derivados de excentricidade e exaltação do espírito; no entanto, só fala assim a maldade, que não acredita ela própria no que diz, mas quer prejudicar com isso: pois o testemunho da superior bondade e perspicácia da sua inteligência está geralmente escrito no rosto do espírito livre de forma tão legível que os espíritos subordinados o compreendem bastante bem. Mas as outras derivações do livre-pensamento são honestamente mencionadas; de facto, muitos espíritos livres até nascem de uma ou de outra maneira. Apesar disso, porém, as teses, a que eles chegaram por essas vias, poderiam ser mais verdadeiras e mais fidedignas do que as dos espíritos subordinados. Tratando-se do conhecimento da verdade, o que importa é tê-lo, não por que motivo se o procurou, por que via se o encontrou. Se os espíritos livres têm razão, então não têm razão os espíritos subordinados, independentemente de os primeiros terem chegado à verdade por imoralidade, de os outros, por moralidade, terem ficado até agora agarrados à falsidade. De resto, não faz parte da essência do espírito livre que ele tenha maneiras de ver mais acertadas, mas antes que ele se tenha desligado do que é tradicional, quer seja com êxito ou com um malogro. Em geral, contudo ele terá do seu lado a verdade ou, pelo menos, o espírito da busca da verdade: ele exige razões, os outros, crenças."

Friedrich Nietzsche

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Vida fácil? Pff...


"E, no entanto, se todos os desejos fossem satisfeitos logo que despertados, como os homens ocupariam a vida, como passariam o tempo? Imaginem essa corrida transportada para uma Utopia em que tudo crescesse por sua própria vontade e os perus assados passassem de um lado para o outro, onde os amantes se encontrassem sem demora e se mantivessem juntos sem dificuldades: em um lugar assim, alguns homens morreriam de tédio ou se enforcariam, alguns brigariam e matariam uns aos outros, e, portanto, criariam mais sofrimento para si mesmos do que a natureza lhes inflige assim como é."
Arthur Schopenhauer