sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O amor romântico


"O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura por eles vestida."

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Do fundo da sétima solidão

"Um dia, tendo fechado uma porta atrás de si, o viajante deteve-se e chorou. Depois disse: «Esta necessidade de verdadeiro, esta sede do real, do certo, este ódio pela aparência... Ah! Como lhes quero mal! Porque é que tenho sempre atrás de mim estes perseguidores sombrios e apaixonados? Porquê eu? Aspiro ao repouso, eles não mo consentem. Quantas coisas me exortam, tentadoras, a que me detenha! Encontro por toda a parte jardins de Armida*: novos temas de sofrimento, novos temas de amarguras sem fim! É necessário voltar a partir, fazer avançar este pé cansado, este pé ferido; e porque é necessário, volto-me muitas vezes para lançar um olhar feroz para as belas coisas que não me souberam reter... porque não me souberam reter!»"

Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência


*Alude-se muitas vezes aos jardins e aos palácios de Armida e invoca-se este nome para designar uma mulher que fascina pelas graças e encantos.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Carácter forte?

"Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do carácter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido."

Friedrich Nietzsche

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A nossa última gratidão para com a arte


"Se não tivéssemos aprovado as artes, se não tivéssemos inventado esta espécie de culto do erro, não poderíamos suportar ver o que nos mostra agora a Ciência: a universalidade do não verdadeiro, da mentira, e que a loucura e o erro são condições do mundo intelectual e sensível. A lealdade teria, por consequência, a náusea e o suicídio. Mas à nossa lealdade opõe-se uma contrapartida que ajuda a evitar semelhantes consequências: a arte, enquanto encarada como boa vontade da ilusão. Nem sempre proibimos aos nossos olhos o concluir, o inventar uma finalidade: a partir daí já não é a imperfeição, essa eterna imperfeição, que levamos pelo rio do devir, é uma deusa na nossa ideia, e sentimo-nos infantilmente altivos de a levar connosco. Enquanto fenómeno estético, a existência conserva-se-nos suportável e a arte dá-nos os olhos, as mãos, sobretudo a boa consciência que é necessária para poder fazer dela este fenómeno por meio dos nossos naturais recursos. É preciso de vez em quando descansarmos de nós próprios, olhando-nos de alto com o longínquo da arte, para rir, ou para chorar sobre nós: é preciso descobrirmos o herói e também o louco que se dissimulam na nossa paixão de conhecer; é preciso sermos felizes, de vez em quando, com a nossa loucura, para podermos continuar felizes com a nossa sageza! E é porque, precisamente, no fundo somos pessoas pesadas e sérias, e mais pesos do que homens, que nada nos faz melhor do que o ceptro de guizos: temos necessidade dele perante nós próprios, precisamos de toda a arte petulante, flutuante, dançante, trocista, infantil, satisfeita, para não perder essa liberdade que nos coloca acima das coisas e que o nosso ideal exige de nós. Seria para nós um recuo - e precisamente em virtude da nossa irritável lealdade - cair inteiramente na moral, e tornarmo-nos por amor das super severas exigências que nos impomos neste ponto, monstros e espantalhos de virtude; e não somente com a inquieta rigidez daquele que receia a todo o instante dar um passo em falso e cair, mas com o à-vontade de alguém que pode planar e zombar por cima dela! Como poderíamos, nesse campo, dispensar a arte e o louco?

...E enquanto mantiverdes ainda, seja no que for, vergonha de vós próprios, não sereis capazes de ser dos nossos."

Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência