segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Origem da Decadência III


"Sócrates pertencia, pela sua ascendência, ao mais baixo do povo: Sócrates era plebe. Sabe-se, mesmo ainda hoje se pode ver, que feio era. Mas a fealdade, que em si mesma é uma objecção, entre os gregos é quase uma refutação. Seria Sócrates realmente um grego? Com bastante frequência, a fealdade é expressão de uma evolução cruzada, travada pelo cruzamento. Noutros casos aparece como uma evolução descendente. Os antropólogos entre os criminalistas dizem-nos que o criminoso típico é feio: monstrum in fronte, monstrum in animo. Porém o criminoso é um décadent. Seria Sócrates um criminoso típico? - Pelo menos esta hipótese não estaria em contradição com aquele famoso juízo de um fisionomista, que tão chocante parecia aos amigos de Sócrates. Estando de passagem por Atenas um estrangeiro, célebre pelo conhecimento que tinha das fisionomias, disse a Sócrates na sua frente que era um monstrum - que escondia no seu íntimo todos os vícios e maus apetites. E Sócrates limitou-se a responder: «Conheceis-me, senhor!»"

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Origem da Decadência II


"A mim próprio esta irreverência de pensar que os grandes sábios são tipos decadentes me ocorreu pela primeira vez precisamente num caso em que a ela se opõe do modo mais energético o preconceito douto e indouto: eu apercebi-me de que Sócrates e Platão são sintomas de decadência, instrumentos da decomposição grega, pseudo-gregos, antigregos (A Origem da Tragédia, 1872). Esse consensus sapientium - isto o fui compreendendo cada vez melhor - o que menos prova é que tiveram razão naquilo em que coincidiam: prova, isso sim, que eles próprios, esses sapientíssimos, coincidiam fisilogicamente em algo, para adoptar - para ter de adoptar - uma mesma atitude negativa face à vida. Os juízos, os juízos de valor sobre a vida, a favor ou contra, não podem, em definitivo, ser verdadeiros nunca: unicamente têm valor como sintomas, unicamente interessam como sintomas, - em si próprios tais juízos são disparates. Há que alargar totalmente os dedos para ela e esboçar a intenção de agarrar esta surpreendente finesse, que o valor da vida não pode ser fixado. Não por um vivo, porque este é parte, mesmo objecto de litígio, e não juiz; não por um morto, por uma razão diferente. - O facto de que por parte de um filósofo se veja um problema no valor, da vida não deixa de ser pois, até um reparo contra ele, um sinal de interrogação posto à frente da sua sabedoria, uma falta de sabedoria. - Como?, e será que todos esses grandes sábios não só teriam sido décadents, mas também que nem sequer hajam sido sábios? - Porém, volto ao problema de Sócrates."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Origem da Decadência I (O problema de Sócrates)


"Em todos os tempos os sapientíssimos têm-se pronunciado da mesma forma sobre a vida: não vale nada... Sempre e em todas as partes ouviu-se da sua boca o mesmo tom, - Um tom cheio de dúvida, cheio de melancolia, cheio de cansaço da vida, cheio de oposição à vida. O próprio Sócrates disse ao morrer: "viver significa estar enfermo durante longo tempo - devo um galo a Asclépio salvador"1. O próprio Sócrates estava farto da vida. O que prova isto? O que indica? - Noutro tempo ter-se-ia dito (oh, disse-se-o, e bem alto, e os nossos pessimistas foram os primeiros!): "Aqui, em todo caso algo tem de ser verdadeiro! O consensus sapientium prova a verdade." Continuaremos nós a falar assim hoje?, é-nos lícito falar assim? "Aqui em todo o caso, algo tem de estar enfermo" - é a resposta que nós damos: a esses sapientíssimos de todos os tempos dever-se-ia examiná-los de perto primeiro! Será que nenhum deles se sustinha já firmamente sobre as suas pernas?, será eu eram homens tardios?, que cambaleavam? décadents? Será que a sabedoria aparece na terra como um corvo ao qual um ténue odor a podre o entusiasma?..."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos


1O galo era o animal tradicionalmente oferecido pelos doentes a Asclépio, o deus da medicina, em agradecimento pela recuperação da saúde. A morte era pois, para Sócrates, a cura da doença que é viver.

O Início


"Aos trinta anos, Zaratustra deixou a sua terra natal e o lago da sua Terra e subiu para a montanha. Aí desfrutou do seu espiríto e da sua solidão e durante dez anos não sentiu fadiga. Mas por fim o seu coração transformou-se - e em certa manhã levantou-se antes da aurora, colocou-se diante do Sol e falou-lhe deste modo:
- Ó grande astro! Que seria de ti se não tivesses aqueles a quem iluminas!
Ao longo de dez anos vieste até à minha caverna: sem mim, sem a minha águia e sem a minha serpente sentir-te-ias triste e cansado da tua luz e deste caminho.
Mas nós estávamos todas as manhãs à tua espera, recebíamos o que para ti era supérfulo e davámos graças por isso.
Pois bem! Tal como a abelha que fabricou demasiado mel, sinto-me triste e cansado com a minha sabedoria, tenho necessidade de mãos que para mim se estendam.
Desejaria dar e distribuir até ao ponto de os sábios entre os homens se tornarem alegres com a sua loucura e os pobres satisfeitos com a sua riqueza.
Esta razão que me obriga a descer às profundezas: da mesma maneira que à tarde tu passas para além do mar levando ainda a tua luz ao mundo dos abismos, ó astro superabundante!
Como tu, também eu preciso de descer, segundo a lingagem dos homens que quero ir encontrar.
Abençoa-me, pois, olho manso, que podes até sem inveja ver uma felicidade demasiado grande!
Abençoa a taçã que quer transbordar, para que a sua água, correndo em ondas douradas, leve a toda a parte o reflexo da tua alegria!
Olha! Esta taça quer voltar a esvaziar-se e Zaratustra quer voltar a ser homem.

Assim começou o declínio de Zaratustra."

Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra


Eis o ponto de partida de Assim Falava Zaratustra... assim como o do meu blog...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Introdução

“Sou um homem ridículo. Agora já quase me têm por louco. O que significaria ter ganho em consideração, se não continuasse sendo um homem ridículo. Mas eu já não me aborreço por causa disso, agora já não guardo rancor a ninguém e gosto de toda a gente, ainda que se riam de mim... sim, senhor, agora, não sei por quê, mas sinto por todos os meus próximos uma ternura especial. Teria muito gosto em acompanhá-los no vosso riso... não precisamente nesse riso à minha custa, mas sim pelo carinho que me inspiram, se não me fizesse tanta pena vê-los. É pena que não saibam a verdade. Oh, meu Deus! quanto custa isso de ser um só a saber a verdade! Mas isto não compreendem eles. Não, nunca compreenderiam isto.”

Fiodor Dostoiévski