sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Origem da Decadência II


"A mim próprio esta irreverência de pensar que os grandes sábios são tipos decadentes me ocorreu pela primeira vez precisamente num caso em que a ela se opõe do modo mais energético o preconceito douto e indouto: eu apercebi-me de que Sócrates e Platão são sintomas de decadência, instrumentos da decomposição grega, pseudo-gregos, antigregos (A Origem da Tragédia, 1872). Esse consensus sapientium - isto o fui compreendendo cada vez melhor - o que menos prova é que tiveram razão naquilo em que coincidiam: prova, isso sim, que eles próprios, esses sapientíssimos, coincidiam fisilogicamente em algo, para adoptar - para ter de adoptar - uma mesma atitude negativa face à vida. Os juízos, os juízos de valor sobre a vida, a favor ou contra, não podem, em definitivo, ser verdadeiros nunca: unicamente têm valor como sintomas, unicamente interessam como sintomas, - em si próprios tais juízos são disparates. Há que alargar totalmente os dedos para ela e esboçar a intenção de agarrar esta surpreendente finesse, que o valor da vida não pode ser fixado. Não por um vivo, porque este é parte, mesmo objecto de litígio, e não juiz; não por um morto, por uma razão diferente. - O facto de que por parte de um filósofo se veja um problema no valor, da vida não deixa de ser pois, até um reparo contra ele, um sinal de interrogação posto à frente da sua sabedoria, uma falta de sabedoria. - Como?, e será que todos esses grandes sábios não só teriam sido décadents, mas também que nem sequer hajam sido sábios? - Porém, volto ao problema de Sócrates."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

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