terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Origem da Decadência IV


"Não só o excesso e a anarquia confessados dos instintos são um indício de décadence em Sócrates: também o são a superfetação do lógico e aquela maldade de raquítico que o caracteriza.(...) Tudo nele é exagerado, buffo, caricatural, tudo é ao mesmo tempo oculto, cheio de segundas intenções, subterrâneo. - Eu tenciono averiguar de que idiossincrasia procede aquela equação socrática de Razão = Virtude = Felicidade: a equação mais extravagante que existe, e que tem contra si, em especial, todos os instintos do helenos antigo.
Com Sócrates o gosto grego altera-se em favor da dialéctica: o que é que acontece então verdadeiramente? Antes de tudo, com isto fica vencido um gosto aristrocático; com a dialéctica a plebe coloca-se por cima. Antes de Sócrates as pessoas, na boa sociedade, repudiavam os modos dialécticos: eram considerados como sendo de mau gosto, comprometiam quem as usasse. A juventude era prevenida contra eles. Também se desconfiava de toda a exibição por esse método das ideias de cada um. As coisas honestas, tal como os homens honestos, não levam as suas razões na mão dessa maneira. É indecoroso mostrar os cinco dedos. Pouco valioso é o que tem de ser provado. Em todo o lugar onde a autoridade continua a fazer parte do bom costume, e o que se dá não são «razões», mas sim ordens, o dialéctico é uma espécie de palhaço: as pessoas riem-se dele, não o tomam a sério. - Sócrates foi o palhaço que se fez tomar a sério: o que aconteceu realmente aqui?"

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

5 comentários:

Anônimo disse...

A repugnância com que Nietzsche ofende Sócrates tem o mesmo fundo de origem que a equação de Sócrates so que é inversa. Não obstante Nietzsche não quer contestar o resultado porque esse toda a gente já sabe que está errado. Ele pretende contestar aquilo que não foi Sócrates a decidir. É impossível vivermos sem a razão, ainda que no mínimo dos minímos precisemos dela (como Nietzsche) para contestarmos que ela é precisa e invertermos a equação. Aquilo que este inveje é o poder animal, que nada pensa nem nada sofre, feliz? O que é a felicidade num animal? dará algum valor a uma coisa que está adquirida à partida? Não. Mas é esse valor que Friedrich deseja e contesta-o da maneira como é adquirido para alguns mas não mostra essencialmente uma maneira viável. No fundo, não prescinde da razão para insultar Sócrates. E também não é feliz. (o que nega a equação) mas não chega a refutá-la por completo, pois nao apresenta uma nova solução.
Gostamos muito de nos lembrarmos dos animaizinhos tão queridos tão felizes ai quem me dera não pensar...lol, a felicidade não é sentida é pensada. Emoções como alegria ou outros podem provocar felicidade mas é a razão que diz se a temos ou não. Então por que raio invejamos quem não pensa se esse quem nem sequer é alguem.

Anônimo disse...

Embora concorde que Sócrates exagerava.

O Homem Ridículo disse...

Concordo com algumas coisas que disseste, mas a questão não é se podemos ou não viver sem a razão. A razão é uma das caracteristicas que nos diferencia do resto dos animais no fundo... Mas o que Nietzsche está a por em jogo não é se podemos viver ou não sem ela (além disso é impossivel abolir a racionalidade da natureza de um ser humano, é genético), mas se com ela conseguimos obter bons resultados. Nietzsche admirava tanto os pré-Socráticos por que razão? Antes de sequer Sócrates começar com as suas ideias de racionalidade, na Grécia Antiga predominava o espiritio Dionísio (deus grego do vinho, das festas e desordem) e de Apolineo (deus da racionalidade, do sereno) em perfeito equlibrio. Para Nietzsche esse foi o tempo em que a humanidade esteve no seu auge, pois como se pode verificar, intintos e racionalidade estavam em equilibrio. De repente apareceu Sócrates com as suas ideias inovadoras e tal que a racionalidade era igual a virtude, que por sua vez era igual a felicidade. Socrates tinha um truque na manga, introduziu a dialectica como uma jogo, um novo agon, ou seja, uma nova forma de competitividade que fascinou logo de inicio os gregos, pois, como deves saber, o povo grego era grande adepto de jogos e competitividade (Jogos Olimpicos). Com a introdução da dialectica, obrigava-os a raciocinar, a pensar demais. E o que a principio era um jogo, tornou-se uma forma de vivência: a vivencia racional. Com isto, o espirito Dionisiaco caiu por terra e Apolo ascendeu, afundando o povo grego (e mais tarde, o mundo inteiro...) numa racionalidade venenosa.
Antes de isso acontecer, fazia-se uso da racionalidade sim, mas somente em ultimo caso. Nietzsche notou que Socrates ao deparar-se com uma determinada situaçao, ele usava primeiramente a racionalidade e somente a racionalidade, mesmo que a sua acção fosse contra os seus instintos (coisa que muita gente faz). Quase que dava a atender que Socrates não tinha instintos ou o seu instinto era a sua propria racionalidade! Sócrates era um monstrum!
Com a elevação da racionalidade, o espirito que permanece hoje em dia na sociedade é o tal "pensa muito, mas não faz nada" ou "fala muito, mas não faz nada" (no caso da dialectica).
Existe um poema de Fernando Pessoa (ortonimo) chamado "Ela canta, pobre ceifeira", em que reflecte bastante bem o que quero dizer: O autor inveja uma ceifeira que aparenta ser pobre, de uma classe baixa, mas que é feliz apesar disso precisamente pelo facto de não fazer demasiado uso da racionalidade. Saramago já disse mesmo que "o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie."
Outro ponto: disseste que Nietzsche "mas não chega a refutá-la por completo, pois não apresenta uma nova solução". Como assim não apresenta uma nova solução? Deves ter em atenção uma coisa: Nietzsche nunca procurou melhorar a humanidade, apenas indicou os seus erros. Caso Nietzsche proposse uma outra equação do género, estaria a fazer o mesmo erro que Sócrates! E que tal criares tu a tua própria equação, a tua própria filosofia? Não existem formulas para chegar à felicidade e/ou virtude! É ridículo! Por isso mesmo Nietzsche não cometeu o mesmo erro que Sócrates LOL não estamos a falar de um banana qualquer.
Não concordo quando dizes que a felicidade não sentida, mas pensada. Quando sentimos felicidade, a racionalidade toma a sua acção e apercebe-se que estamos felizes nesse momento, sim...Mas repara...o que vem primeiro? O sentimento de felicidade ou a consciencialização de que estamos felizes? Nunca ponhas os instintos, sentimentos abaixo da racionalidade.
Espero ter sido claro!

Anônimo disse...

Estás a contradizer-te. Apontar os erros sem sermos melhores que eles...big deal. se contestamos algo então é porque temos uma solução melhor. Dizes que nietzsche queria que cada um tivesse a sua filosofia então por que ~razao não deixou o socrates viver a filosofia dele? Se ele pensasse isso, porque definia que a razão aliada aos sentidos era a que estava correcta? Há coisas incoerentes.
eu disse que nao era um poema bonito por que dizia que vivia com o mesmo sem vontade com que rasgara o ventre da mae, nvm. mas eu entendi a tua ideia. é pode ser que a porta se abra. =)

Anônimo disse...

tou tao enervada. tenho teste de espanhol amanha e odeio essa disciplina e depois vou ter de fazer um trabalho oral de espanhol. ainda bem que me conheces mal, nao ias ter paciencia para me aturar lol.