"Dei a entender porque que motivos podia Sócrates causar repulsa: resta-me agora esclarecer o que fascinava nele. - Uma razão é que ele descobriu uma espécie nova de agón, nisto ele foi o primeiro mestre de esgrima para os círculos aristocráticos de Atenas. Fascinava, na medida em que apelava para o instinto agonal dos helenos, - introduziu uma variante na luta pugilística entre os jovens e os adolescentes. Sócrates era também um grande erótico.
Mas Sócrates adivinhou algo mais. Viu o que havia por trás dos seus aristocráticos atenienses; compreendeu que o seu caso, a idiossincrasia do seu caso, não era já um caso excepcional. A mesma espécie de degenerescência preparava-se silenciosamente em toda parte: A velha Atenas caminhava para o seu fim. E Sócrates compreendeu que todos precisavam dele, - do seu remédio, da sua cura, do seu ardil pessoal para autoconservar-se... Por toda a parte os instintos encontravam-se em anarquia; em toda a parte estava-se à beira do excesso: o monstrum in animo era o perigo geral. «Os instintos querem arvorar-se em tiranos; há que inventar um contratirano, que seja mais forte...»
Quando aquele fisionomista revelou a Sócrates a sua verdadeira natureza, um antro de todos os maus instintos, o grande irónico pronunciou contudo uma uma frase que fornece a chave para o compreender. «É verdade, disse, porém consegui dominá-los a todos». Como chegou Sócrates a dominar-se a si? - No fundo, o seu caso foi só o caso extremo, só o caso que saltava mais à vista, daquilo que começava então a tornar-se calamidade geral: que ninguém era já dono de si - que os instintos se voltavam uns contra os outros. Sócrates fascinou por ser esse o caso extremo - a sua fealdade, que inspirava medo, era aos olhos de todos a expressão desse caso: e, como é fácil compreender, fascinou mais fortemente ainda como resposta, como solução, como aparência de cura desse caso."
Mas Sócrates adivinhou algo mais. Viu o que havia por trás dos seus aristocráticos atenienses; compreendeu que o seu caso, a idiossincrasia do seu caso, não era já um caso excepcional. A mesma espécie de degenerescência preparava-se silenciosamente em toda parte: A velha Atenas caminhava para o seu fim. E Sócrates compreendeu que todos precisavam dele, - do seu remédio, da sua cura, do seu ardil pessoal para autoconservar-se... Por toda a parte os instintos encontravam-se em anarquia; em toda a parte estava-se à beira do excesso: o monstrum in animo era o perigo geral. «Os instintos querem arvorar-se em tiranos; há que inventar um contratirano, que seja mais forte...»
Quando aquele fisionomista revelou a Sócrates a sua verdadeira natureza, um antro de todos os maus instintos, o grande irónico pronunciou contudo uma uma frase que fornece a chave para o compreender. «É verdade, disse, porém consegui dominá-los a todos». Como chegou Sócrates a dominar-se a si? - No fundo, o seu caso foi só o caso extremo, só o caso que saltava mais à vista, daquilo que começava então a tornar-se calamidade geral: que ninguém era já dono de si - que os instintos se voltavam uns contra os outros. Sócrates fascinou por ser esse o caso extremo - a sua fealdade, que inspirava medo, era aos olhos de todos a expressão desse caso: e, como é fácil compreender, fascinou mais fortemente ainda como resposta, como solução, como aparência de cura desse caso."
Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos
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