"Esse mesmo remédio, a castração, o extermínio, é escolhido instintivamente, na luta contra um desejo, pelos que são mais débeis, pelos que estão demasiado degenerados para poderem impor-se moderação nesse desejo: por aquelas naturezas que, para falar em matáfora (e sem metáfora -), têm necessidade de la Trappe, de alguma declaração definitiva de inimizade, de um abismo entre elas e uma paixão. Os meios radicais afiguram-se indispensáveis tão-só aos degenerados; a debilidade da vontade, ou, dito com mais exactidão, a incapacidade de não reagir a um estímulo é simplesmente outra forma de degenerescência. A inimizade radical, o ódio mortal contra a sensualidade não deixa de ser um sintoma que induz a reflectir: ele autoriza a fazer conjecturas sobre a saúde mental de quem comete tais excessos. - Essa hostilidade, esse ódio chega ao seu cúmulo, além disso, só quando tais naturezas não têm já firmeza bastante para a cura radical, para renunciar ao seu "demónio". Deite-se um olhar para a história inteira dos sacerdotes e filósofos, não esquecendo a dos artistas: as coisas mais venenosas contra os sentidos não foram ditas pelos impotentes, tão-pouco pelos ascetas, mas sim pelos ascetas impossíveis, por aqueles que teriam necessitado de ser ascetas..."
Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos
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