domingo, 21 de março de 2010

A Moral como Contra-Natureza VI

"Consideremos ainda, por último, que ingenuidade é dizer: "o homem deveria ser deste ou daquele modo!" A realidade mostra-nos uma riqueza fascinante de tipos, a exuberância própria de um pródigo jogo e mudança de formas: e qualquer pobre moço de esquina de moralista diz a isto: "não!, o homem deveria ser de outro modo"?... Ele sabe mesmo como deveria ser ele, esse mentecapto e hipócrita, pinta-se a si mesmo na parede e diz ecce homo!... Porém, mesmo quando o moralista se dirige simplesmente ao indivíduo e lhe diz: "tu deverias ser deste e daquele modo!", não deixa de se pôr a ridículo. O indivíduo é, de cima a baixo, um fragmento de fatum, mais uma lei, mais uma necessidade para tudo o que vem e será. Dizer-lhe "modifica-te" significa procurar que se modifiquem todas as coisas, mesmo as passadas... E, realmente, houve moralistas consequentes, eles quiseram o homem de outro modo, quer dizer, virtuoso, quiseram-no à sua imagem, ou seja, como um beato: para isso negaram o mundo! Um disparate nada pequeno! Uma espécie nada modesta de imodéstia!... A moral, na medida em que condena por si, não devido a atenções, considerações, intenções próprias da vida, é um erro específico com o qual não se deve ter compaixão alguma, uma idiossincrasia de degenerados, que produziu um dano indescritível!... Nós que somos diferentes, nós os imoralistas, temos aberto, pelo contrário, o nosso coração a toda a espécie de intelecção, compreensão, aprovação. Não se nos afigura fácil negar, procuramos a nossa honra em sermos afirmativos. Vão-se-nos abrindo cada vez mais olhos para ver aquela economia que necessita e sabe aproveitar ainda tudo aquilo que é recusado pelo santo desatino do sacerdote, pela razão enferma do sacerdote, para ver aquela economia que rege a lei da vida, a qual obtém proveito mesmo da repugnante species do beato, do sacerdote, do virtuoso, - que proveito? - Mas nós próprios, os imoralistas, somos aqui a resposta..."

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

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