domingo, 20 de fevereiro de 2011

Do fundo da sétima solidão

"Um dia, tendo fechado uma porta atrás de si, o viajante deteve-se e chorou. Depois disse: «Esta necessidade de verdadeiro, esta sede do real, do certo, este ódio pela aparência... Ah! Como lhes quero mal! Porque é que tenho sempre atrás de mim estes perseguidores sombrios e apaixonados? Porquê eu? Aspiro ao repouso, eles não mo consentem. Quantas coisas me exortam, tentadoras, a que me detenha! Encontro por toda a parte jardins de Armida*: novos temas de sofrimento, novos temas de amarguras sem fim! É necessário voltar a partir, fazer avançar este pé cansado, este pé ferido; e porque é necessário, volto-me muitas vezes para lançar um olhar feroz para as belas coisas que não me souberam reter... porque não me souberam reter!»"

Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência


*Alude-se muitas vezes aos jardins e aos palácios de Armida e invoca-se este nome para designar uma mulher que fascina pelas graças e encantos.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Carácter forte?

"Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do carácter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido."

Friedrich Nietzsche

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A nossa última gratidão para com a arte


"Se não tivéssemos aprovado as artes, se não tivéssemos inventado esta espécie de culto do erro, não poderíamos suportar ver o que nos mostra agora a Ciência: a universalidade do não verdadeiro, da mentira, e que a loucura e o erro são condições do mundo intelectual e sensível. A lealdade teria, por consequência, a náusea e o suicídio. Mas à nossa lealdade opõe-se uma contrapartida que ajuda a evitar semelhantes consequências: a arte, enquanto encarada como boa vontade da ilusão. Nem sempre proibimos aos nossos olhos o concluir, o inventar uma finalidade: a partir daí já não é a imperfeição, essa eterna imperfeição, que levamos pelo rio do devir, é uma deusa na nossa ideia, e sentimo-nos infantilmente altivos de a levar connosco. Enquanto fenómeno estético, a existência conserva-se-nos suportável e a arte dá-nos os olhos, as mãos, sobretudo a boa consciência que é necessária para poder fazer dela este fenómeno por meio dos nossos naturais recursos. É preciso de vez em quando descansarmos de nós próprios, olhando-nos de alto com o longínquo da arte, para rir, ou para chorar sobre nós: é preciso descobrirmos o herói e também o louco que se dissimulam na nossa paixão de conhecer; é preciso sermos felizes, de vez em quando, com a nossa loucura, para podermos continuar felizes com a nossa sageza! E é porque, precisamente, no fundo somos pessoas pesadas e sérias, e mais pesos do que homens, que nada nos faz melhor do que o ceptro de guizos: temos necessidade dele perante nós próprios, precisamos de toda a arte petulante, flutuante, dançante, trocista, infantil, satisfeita, para não perder essa liberdade que nos coloca acima das coisas e que o nosso ideal exige de nós. Seria para nós um recuo - e precisamente em virtude da nossa irritável lealdade - cair inteiramente na moral, e tornarmo-nos por amor das super severas exigências que nos impomos neste ponto, monstros e espantalhos de virtude; e não somente com a inquieta rigidez daquele que receia a todo o instante dar um passo em falso e cair, mas com o à-vontade de alguém que pode planar e zombar por cima dela! Como poderíamos, nesse campo, dispensar a arte e o louco?

...E enquanto mantiverdes ainda, seja no que for, vergonha de vós próprios, não sereis capazes de ser dos nossos."

Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência

sábado, 29 de janeiro de 2011

Espera


Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Bem Sei, Amor, que é Certo o que Receio


Bem sei, Amor, que é certo o que receio;
Mas tu, porque com isso mais te apuras,
De manhoso, mo negas, e mo juras
Nesse teu arco de ouro; e eu te creio.

A mão tenho metida no meu seio,
E não vejo os meus danos às escuras;
Porém porfias tanto e me asseguras,
Que me digo que minto, e que me enleio.

Nem somente consinto neste engano,
Mas inda to agradeço, e a mim me nego
Tudo o que vejo e sinto de meu dano.

Oh poderoso mal a que me entrego!
Que no meio do justo desengano
Me possa inda cegar um moço cego?

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

A "Sensura"

"A nossa sociedade autoriza tudo o que não a incomoda. Se isto já não é plenamente verdade nos nossos dias, e se estamos em crise, é porque o interesse imediato dos que estão no poder se encontra em contradição com os valores que fundamentam este mesmo poder. É-lhes necessário, por exemplo, incentivar o consumo que os enriquece, em detrimento da moral que os legitima. Pela primeira vez, o poder fundamenta-se na confusão e não na ordem. Daí a mentira generalizada, de que a língua sofre.

A permissividade actual autoriza que se diga tudo porque este tudo já não significa nada. A palavra torna-se inofensiva por privação de sentido. A escrita sofre a mesma privação nas suas formas normalizadas: publicidade, jornalismo, best-sellers, que passam por escrita quando não o são.
O objectivo da antiga censura consistia em tornar o adversário inofensivo, privando-o dos seus meios de expressão; a nova - que denominei sensura - esvazia a expressão para a tornar inofensiva, método mais radical e menos visível."

Bernard Noel

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Abutre


"Era um abutre que me bicava os pés. Tinha já rasgado as botas e as meias e agora bicava os próprios pés. Bicava sempre sem parar, esvoaçava depois inquieto várias vezes à minha volta e retomava o trabalho. Um homem passou por nós, observou por um momento e depois perguntou porque tolerava eu o abutre. «Não tenho com que me defender», disse eu, «ele chegou e começou a bicar-me, e é claro que o quis enxotar, tentei mesmo estrangulá-lo, mas um animal destes tem muita força, também já queria saltar-me para a cara, por isso preferi antes sacrificar os pés. Agora já estão quase desfacelados.» «Imagine-se, deixar-se torturar assim», disse o homem, «um tiro e é o fim do abutre.» «A sério?» perguntei eu, «e o senhor não quer tratar disso?» «Com muito gosto», disse o homem, «tenho só de ir a casa buscar a espingarda. Consegue esperar ainda uma meia hora?» «Não sei», disse eu, e por um momento fiquei hirto de dor, depois disse: «Em todo o caso tente, por favor.» «Muito bem», disse o homem, «vou apressar-me.» Durante a conversa o abutre ouvira serenamente, deixando vaguear o olhar entre mim e o homem. Via agora que ele entendera tudo, levantou voo, curvou-se muito para trás para ganhar balanço e como um atirador de lanças enfiou então o bico pela minha boca até ao mais fundo de mim. Ao cair para trás senti-me liberto enquanto no meu sangue que enchia todas as profundezas e transbordava de todas as margens ele se afogava sem salvação."

Franz Kafka