quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Abutre


"Era um abutre que me bicava os pés. Tinha já rasgado as botas e as meias e agora bicava os próprios pés. Bicava sempre sem parar, esvoaçava depois inquieto várias vezes à minha volta e retomava o trabalho. Um homem passou por nós, observou por um momento e depois perguntou porque tolerava eu o abutre. «Não tenho com que me defender», disse eu, «ele chegou e começou a bicar-me, e é claro que o quis enxotar, tentei mesmo estrangulá-lo, mas um animal destes tem muita força, também já queria saltar-me para a cara, por isso preferi antes sacrificar os pés. Agora já estão quase desfacelados.» «Imagine-se, deixar-se torturar assim», disse o homem, «um tiro e é o fim do abutre.» «A sério?» perguntei eu, «e o senhor não quer tratar disso?» «Com muito gosto», disse o homem, «tenho só de ir a casa buscar a espingarda. Consegue esperar ainda uma meia hora?» «Não sei», disse eu, e por um momento fiquei hirto de dor, depois disse: «Em todo o caso tente, por favor.» «Muito bem», disse o homem, «vou apressar-me.» Durante a conversa o abutre ouvira serenamente, deixando vaguear o olhar entre mim e o homem. Via agora que ele entendera tudo, levantou voo, curvou-se muito para trás para ganhar balanço e como um atirador de lanças enfiou então o bico pela minha boca até ao mais fundo de mim. Ao cair para trás senti-me liberto enquanto no meu sangue que enchia todas as profundezas e transbordava de todas as margens ele se afogava sem salvação."

Franz Kafka

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