terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Ciúme

"É inimaginável a desonra e a queda moral em que o ciumento pode viver, sem quaisquer remorsos. Mas não se pode dizer que todos os ciumentos sejam almas ordinárias e sujas. Pelo contrário, há-os de coração sublime e amor puro, cheio de abnegação mas que, ao mesmo tempo, podem esconder-se debaixo das mesas, subornar indivíduos infames e viver no meio da mais abominável porcaria de espionagem e espreita. (…) O verdadeiro ciumento é outra coisa: é difícil imaginar com que coisas é capaz de conviver e se resignar um certo tipo de ciumentos! São ciumentos que perdoam rapidamente, e todas as mulheres o sabem. Um ciumento pode perdoar muito rapidamente (depois de uma cena terrível, é óbvio), por exemplo, uma infidelidade já quase provada, os abraços e beijos que ele próprio já viu, no caso de, ao mesmo tempo, se convencer de algum modo de que «era a última vez» e que o seu rival, a partir desse momento, partiria, desapareceria para outro extremo do mundo, ou ele mesmo, o ciumento, levaria a mulher para um lugar onde ela não veria mais esse terrível rival. É evidente que se apazigua apenas por uma hora, porque, mesmo que o rival desapareça, o ciumento logo inventará outro e terá ciúmes dessoutro. Diremos: que interesse tem um amor que é preciso vigiar desta maneira, que valor tem, assim, o amor? Pois é exactamente isto que nunca o verdadeiro ciumento compreenderá, apesar de, entre essa gente, existirem pessoas com corações sublimes."

Fiodor Dostoievski, Os irmãos Karamazov

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